|
História da COLUNA 4 -
A Indumentária da Bateria
   Hoje, a coluna Papo de Mestre aceita sugestões de Marcello Sodoh, carioca de Botafogo, torcedor e ex-ritmista da Portela e que atualmente mora no Japão, que me enviou algumas sugestões por e-mail, pedindo para falar sobre baterias e a indumentária da bateria. E lembre-se, se você quer ver algum tema específico sobre samba abordado aqui mande e-mail para rspj@globo.com. Na medida do possível vamos escrevendo os pedidos dos leitores.
   O assunto de hoje é exatamente BATERIA, o coração pulsante da escola, é a mola mestra que impulsiona os componentes e ajuda (juntamente com o samba-enredo) à escola a cantar, brincar carnaval e enfim evoluir ! Vou começar enumerando os instrumentos de uma bateria, porque talvez as pessoas não saibam. Temos o surdos, de 1ª, 2ª e 3ª, as caixas de guerra, repiques, tamborins, chocalhos e cuícas, além de taróis, agogôs, pratos, reco-recos, frigideiras, etc. Não há uma receita perfeita ou uma fórmula matemática para de estabalecer a correta proporção entre os instrumentos, isso acontece mais de acordo com a percepção do mestre de bateria de acordo com a característica da sua bateria. Alguns exemplos: na bateria da Unidos da Tijuca, assim como Viradouro, a característica da bateria são as caixas de guerra, presentes em quantidade superior a 100 dentre os 280 ritmistas que habitualmente desfilam, além de aproximandos 50 tamborins, enquanto que baterias como a da Portela têm como característica a marcação, com surdos de 1ª e 2ª em grande quantidade. É uma bateria que sempre foi dita pesada e que hoje está em primorosa evolução nas mãos de um mestre de bateria jovem e competente. A Mocidade, há um grande destaque para a bateria espetáculo de muitas paradinhas e ala de tamborins que sempre teve batidas consideradas difíceis. Na Mocidade por exemplo já houve anos em que foi noticiado estarem desfilando 70 tamborins, e apenas 40, 50 caixas de guerra. Uma exceção entre as baterias é a bateria da Mangueira por não apresentar 2ª marcação. Outra que tem uma característica toda especial é a Império Serrano, que também é considerada pesada e tem uma enorme ala de agogôs muito conhecida por quem gosta de samba. Então, vale ressaltar que não existe uma composição perfeita para esses instrumentos pois todas essas baterias citadas já fizeram grandes apresentações cada uma no seu estilo, e todas também já amargaram momentos ruins, como a da Unidos da Tijuca em 2002, aliás um episódio muito triste da minha estória de samba ... O mal estava anunciado desde que vimos a fotografia da fantasia, era uma roupa vermelha de um lado e amarela do outro com um esplendor enorme ! E mais um chapéu que machucou bastante a cabeça dos ritmistas. Foi realmente um desastre para nós (eu comandava a ala de tamborins da escola na época), até porque a bateria da Unidos da Tijuca fez no período pré carnavalesco visando o carnaval de 2002 as melhores apresentações de bateria da escola. Estávamos todos esperando um verdadeiro show da bateria na pista, mas não foi o que aconteceu.
Vou relatar esse fato também.
   Na noite de domingo no carnaval de 2002, éramos a 3ª a desfilar. Quando os ritmistas começaram a se arrumar para o desfile, nós, diretores já estávamos ficando preocupados pelo tamanho da roupa de cada um. Quando juntamos a bateria para o esquenta, a bateria estava muito desarrumada, mas não por culpa nossa, e sim por conta de uma roupa que não permitia a ninguém ver ninguém ! Desespero total, em frente ao setor 3 ainda sem começar o desfile, no esquenta, a bateria atravessa e ficamos sem ação, afinal em mais de 100 ensaios até aquele dia a bateria nunca havia atravessado. Alguns ritmistas que pareciam pressentir o que viria já choravam, outros reclamavam porque não havia espaço para tocar dentro do 1º box, outros ainda se alteravam com os próprios colegas de bateria pelo empurra-empurra e desconforto. Clima de tensão geral ! Tentou-se fazer outro esquenta, também sem sucesso, a bateria novamente não correspondeu e atravessou. O nervosismo era geral.
   Começa o desfile e nem de perto a bateria era a bateria dos ensaios. A firmeza e a segurança foram substituídos pela incerteza, ninguém sabia o que ia acontecer, até porque o som da avenida falhava e chegava certas horas muito atrasado para nós, como se estivéssemos tocando uma parte do samba que não era a que estava sendo cantada, uma situação terrível !!! Celinho (mestre de bateria na época), durante o desfile, foi muito econômico nas paradinhas, afinal ele não via nem a sua diretoria direito de tão grandes eram as roupas que os ritmistas usavam ! Quando a bateria entra na pista de desfile a situação melhora pois o espaço para as pessoas aumenta, e sendo assim a bateria caminha fazendo o simples, sem inventar nem ousar nada. Na cara de todos estava estampado o fracasso pois ninguém esperava aquilo, estávamos aguardando um "sacode" ! De repente a bateria quando foi se apresentar para o segundo jurado parou de se locomover, fruto de um problema com o carro que não entrava, e a bateria que vinha certinha sem grande brilho ficou parada em baixo do jurado por mais de 5 minutos. Num determinado momento a bateria deu uma grande rateada (sem chegar a atravessar) em baixo desse jurado, que na hora fez cara de que estava insatisfeito. A bateria se recupera mas a nota baixa estava evidente (acabou sendo 8,8 na abertura dos envelopes). Continuamos caminhando e tenho que confessar: nunca torci tanto para acabar um desfile como naquele dia, olhávamos para a torre de TV e parecia que ainda faltava uma eternidade!!!
   No finalzinho do desfile os ritmistas pareceram conseguir se acostumar com a roupa incômoda e a bateria tomou um gás comportando-se melhor até o fim do desfile porém para nós já era uma tragédia. No término da aprsesentação, uma cena que jamais vou me esquecer, os ritmistas choravam como crianças ! Muitos homens, senhores, pais de família choravam como se fossem meninos, e todos jogavam a fantasia da bateria fora. Uma cena muito forte ! Eu estava muito triste, quando passou a linha de final do desfile saí da bateria inconsolável, para tentar entender, assimilar aquele momento, muito triste mesmo e encontrei o Celinho na mesma situação. Nós nos abraçamos e não sabíamos nem o que dizer um ao outro. Foi um momento muito triste mesmo!
   Daí se tira uma lição, de que a roupa da bateria não pode ser roupa de destaque ou de ala normal, mas sim uma fantasia funcional ! Certamente aquela roupa nos atrapalhou ! Tanto que nos anos seguintes a bateria apresentou roupas leves, que não tinham esplendores e nem prejudicavam os ritmistas na sua função, que é tocar!
O que vocês acham disso pessoal? A indumentária da bateria realmente atrapalha os ritmistas em sua evolução?
Um abraço e até a próxima!
Ricardinho
|