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TODOS ESTÃO SURDOS: |
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| Lula Branco Martins
Toco surdo. Quer dizer, toco surdo mais ou menos. Mas toco. Não me arriscaria, por exemplo, a defender durante 82 minutos uma escola de samba gigante, do Grupo Especial. Mas, de maceta na mão – no bom sentido –, acho que não faria feio num bloco, ou mesmo numa agremiação de grupos menores. Se eu aprendi sozinho? Não. Minha vontade já era grande desde criança, mas foi só aos 40 que me inscrevi numa escola de percussão. Foi um caminho não muito natural, tenho consciência disso. Pois meu avô não era batuqueiro, e sim dono de um bar. O outro avô era funcionário da Light. Meu pai nunca foi diretor de harmonia; harmonia lá para ele trata-se de um conceito que tem a ver com a dura disciplina militar, com ordem unida, com “ordinário, marche”, essas coisas todas – ele é oficial do Exército. E, por último, minha mãe também não é baiana, nem de nascimento, nem de rodopio – e, sim, professora aposentada, carioca. Muito mais natural para um pretendente a ritmista, isso eu pensava antes, teria sido, ainda menino, ter recebido de Natal um tarol, um repique. Como o tal menino da Mangueira, feliz dono de “um pandeiro e uma cuíca” na letra do velho samba. Mas não rolou. Vieram, e não das mãos de um “mulato sarará, primo-irmão de Dona Zica”, bolas, meias, carrinhos (mas nunca um autorama, que era caro), camisas de time, jogos de tabuleiro, presentes afinal comuns a uma conhecida classe média brasileira branca dominante – e, no caso, tijucana, portanto de certo ranço pacato e de cabeça tradicionalista. Adolescente e, depois, adulto, observava ao longe o contingente das baterias e, era flagrante, não me via ali. Notava que, mesmo com a invasão das alas por turistas e afins, mesmo com os queijos dos carros tomados por gente que só quer aparecer, bom, eu notava então que as baterias ainda funcionavam, numa certa medida, como um bastião de resistência. Por isso me debatia em conflito. Eu mereceria estar ali algum dia no futuro? Mais do que isso. Eu poderia estar? É legítimo? Ou estaria invadindo um habitat que, por desmerecimento e não-tradição, não devia ser o meu? Procurei o Tamborim Sensação há três anos, indicado por um amigo, que conhecia alguém que fazia aulas de percussão lá. Os dois – tanto o amigo como o amigo do amigo – eram e ainda são funcionários do Banco do Brasil. Puxa, quer coisa com mais cara de classe média do que o Banco do Brasil? Pois fui à primeira aula, naquela época ainda na quadra do Tuiuti (agora é no Arranco), com esta... sensação! A de que estava entrando num lugar em que ser de classe média não era ser adversário ou invasor. Eu me sentia, de certa forma, autorizado e estimulado a participar – apesar de saber que essas escolinhas sofrem a maior patrulha. Lembro o início. E verbos no presente a partir de agora. Este assunto é complicado, estamos pisando num terreno pantanoso – o samba, a bateria, o enfrentamento de classes, o poder de quem é dono dos desfiles, dessa festa. E será que acabamos, quando nos valemos de apelidinhos raciais-racistas, contribuindo sem perceber para aumentar esse estranhamento que se dá entre pobres e ricos na época dos desfiles, entre invasores e invadidos, entre remediados e mendigos, entre podres de ricos e ricos podres? Não tenho as respostas. Mas sei que quando Claudinho levanta a mão e a bateria sobe, eu não me sinto nem branco, nem preto, nem nada. Eu me sinto feliz, e isso deve ter um nome. Carnaval, talvez. Até! Frescura 1: coluna dedicada, obviamente, aos mestres – hoje amigos – Claudinho e Henrique. Negões. Irmãos. Lula Branco Martins é jornalista e professor universitário, além de colunista do site www.carnavalesco.com.br e aluno do Projeto tamborim Sensação, onde teve suas primeiras noções de surdo. |
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