QUESTÃO DE OPINIÃO:

Professor Júlio Farias fala sobre o Tamborim Sensação

Coluna Papo de Bamba    O tamborim é dos instrumentos utilizados nas baterias das Escolas de Samba e dos blocos carnavalescos o que mais fascina muita gente. E parece ser o mais fácil de se tocar. Ledo engano de quem vê aquelas mãos ágeis batendo no couro do redondinho. Com efeito, nenhum instrumento usado nas baterias é fácil de ser tocado, aliás, qualquer instrumento musical tem lá sua dificuldade, pois o som que se tira deles depende muito da pessoa que os manipulam e, principalmente, de quem ensina a manipulá-los. De ambas as partes - do aprendiz e do professor - é necessário dedicação extrema para se conseguir resultados satisfatórios e esperados. Eu mesmo, um dos loucos pela folia de Momo, já quis e tentei aprender a tocar os instrumentos de percussão para me sentir mais engajado e integrado no samba. No meu caso foi pura incompatibilidade de horário para treinar e, sobretudo, falta de coordenação motora, pois minhas mãos há muito acharam seu rumo, o da escrita e se recusaram a serem desviadas de sua prazerosa função. De fato, não aprendi a tocar o tamborim e a caixa de guerra, fascinantes para mim. Não pelo mestre, mas pelo reduzidíssimo tempo do curso e por absoluta falta de jeito e de musicalidade auricular sambística. Afinal, tive como professor o talentoso e premiado Mestre Odilon, da Grande Rio que fez de tudo para que eu conseguisse tirar o harmonioso som, fazendo com que minhas pancadas nos instrumentos não fossem sons de palmadas descompassadas. Todavia, no seu cansaço, a contragosto e com desgosto, desobrigou-se de me fazer seguir o ritmo dos outros alunos e deu-me o triste veredicto de que realmente meu problema era a coordenação motora. No caso, a falta dela. Mesmo assim, ainda hoje tento, muito desajeitado acompanhar um samba da Clara Nunes, da Bete Carvalho e do Martinho da Vila ou alguns sambas-enredos com meu pandeiro, meu tamborim e minha caixa de guerra, para que cada um não se sinta inutilizado e abandonado em cima da estante se enchendo de poeira e teia de aranha. Mas só faço isso quando estou sozinho para não envergonhar os instrumentos e a mim mesmo.

    Comecei falando do tamborim porque foi com este instrumento que o grupo de instrutores a que vou me referir nas próximas linhas passou a ser conhecido no mundo do samba, pois no início apenas o tamborim era ensinado por esses mestres. Hoje outras pessoas que acalentam o sonho de um dia serem exímios ritmistas de uma bateria de Escola de Samba ou de bloco têm a sorte de poder contar com o Projeto Tamborim Sensação, a mais importante e conceituada escola de percussão do Rio de Janeiro, coordenada por dois atuantes sambistas do Carnaval carioca: os simpáticos Ricardinho e Sinésio. Posso dizer que já conheci alunos e ex-alunos deste Projeto integrando baterias de diversas Escolas, os quais muito se orgulham de ter lá aprendido a arte de transformar em melodia a batida em um instrumento. Até mesmo a bateria “Pura Cadência” da Unidos da Tijuca, agremiação da qual faço parte, conta com ritmistas – e com R maiúsculo - que aprenderam no Tamborim Sensação o “difícil” e divertido ofício. Difícil para mim, é claro. Mas quem sabe encontrei a solução para o meu problema ? O que tenho que fazer é organizar meus horários para poder me inscrever o mais rápido possível no Tamborim Sensação para aprender com mais calma o poderoso bumbum paticumbum prugurundum que conduz nossas queridas Escolas de Samba pela Marquês de Sapucaí. Embora saiba da competência dos professores do Projeto, não sei se fazem milagres com um incauto arremedo de ritmista como eu, mas não custa tentar.

Julio Cesar Farias é professor, pesquisador da linguagem na cultura popular, escritor, colunista do site papodesamba.com.br, colaborador do Centro de Memórias do Carnaval LIESA-RJ, colaborador-comentarista de carnaval da Rádio Roquette 94FM, membro do Conselho do Instituto do Carnaval da Universidade Estácio de Sá, pesquisador e defensor de enredo da Escola de Samba Unidos da Tijuca e Secretário Geral do Conselho Estadual de Cultura do RJ, além de autor dos livros "Para Tudo Não Se Acabar Na Quarta-Feira - A Linguagem do Samba-Enredo", "Aprendendo Português Com Samba-Enredo","De Parintins Para o Mundo Ouvir - Na Cadência das Toadas dos Bois-Bumbás Caprichoso e Garantido" e "O Enredo de Escola de Samba".